Para ajudar a realizar o sonho da filha, uma mãe carregará no ventre os próprios netos.

Aos 52 anos, Maria São Pedro da Silva prepara-se para a sua terceira gestação. Na primeira, vieram as gêmeas. Na segunda, depois de enjoar até do cheiro de pasta de dente, ganhou Viviany. No fundo, no fundo, agora, queria dois meninos e uma menina. No turbilhão de ansiedade pela próxima gravidez, às vezes, questiona-se até onde vai o amor de uma mãe por um filho. Nunca conseguiu colocar um limite e responder. A única certeza de Maria é que dar à luz o próprio neto para realizar o sonho da filha não é um obstáculo. Não para ela, nem de longe. Viviany Correia Okida é fértil e tem condições de engravidar. Transplantada, encontrou no rim doado pela irmã a oportunidade de continuar vivendo. No entanto, a medicação para os rins e a pressão arterial também controlada com remédios colocam em dúvida o desenvolvimento do feto e elevam, e muito, os riscos de uma gestação. Eu tinha a pressão muita alta e não conseguia controlar. Isso começou a afetar meu rim. Eu ficava enorme, muito inchada. Até que chegou uma hora em que ele estava quase parando. Consegui o transplante, com o rim da minha irmã, conta Viviany.

 

Desejo

No entanto, e apesar de todo o sofrimento do processo, isso não apagou de seu coração o desejo de ser mãe. No hospital, por conta dos remédios, tentaram. Ouviu enfermeiras lhe aconselharem a esquecer a maternidade. “Mas a vontade de ser mãe não é assim, simplesmente esquecer”, diz Viviany.

Casada há seis anos, mas há quase 10 com o marido, sempre sonhou com um filho nos braços. Ou uma filha, que garante, se assim Deus quiser, terá um nome, escolhido por ela, em homenagem à ascendência nipônica do marido.

Aos 29 anos, Viviany sentiu aquela pressão que alguns dizem ser o relógio biológico da mulher. Seja o quefor,soube que era a hora. Foi aí que a minha mãe disse que se eu quisesse ela teria (os bebês) para mim, lembra. Uma mãe dando a oportunidade para outra ser mãe.

 

O mais importante será tê-los

De acordo com o médico que acompanha mãe e filha, o ginecologista e obstetra Dr. Condesmar Marcondes de Oliveira, a realização de uma fertilização in vitro tem 50% de chances de dar certo. Na cabeça de Maria e Viviany, esses números não existem.

Elas preferem acreditar que tudo já deu certo. Viviany perde noites de sono imaginado o sexo do bebê ou de quem ele irá puxar o nariz e a boca. Quando ele ou eles estiverem entendendo mais, vou explicar que vieram da mamãe e do papai, mas tiveram que pular para a barriga da vovó para poderem nascer, ensaia o discurso, emocionada. Já foram aspirados os óvulos de Viviany e serão coletados os espermatozoides do marido que, a princípio, achou a ideia meio maluca, mas agora está feliz. Após a fecundação, o embrião será depositado no útero de dona Maria, que enfrentará a gravidez no lugar da filha. SEM CHUTES Os olhos de Viviany, porém, não negam que fará falta sentir a barriga crescer. Ela confessa que gostaria de vivenciar o primeiro chute e todas as mexidinhas do bebê, como a maioria das mães contam. Mas o mais importante será tê-los aqui, afirma, abrindo um sorriso. Inspirada na própria mãe, Viviany diz que quer passar valores, mais do que se preocupar em criar o filho em meio a luxos. Estou tão feliz com essa possibilidade. É a realização de um sonho. Minha mãe está possibilitando isso.

 

“O caso de Maria é a exceção à regra”

“Dona Maria é uma heroína. Ela passou pelas gestações dela e agora irá passar por uma gestação para a filha”, considera o ginecologista, obstetra e sócio fundador da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Dr. Condesmar Marcondes de Oliveira Filho, que acompanha mãe e filha na jornada.

Segundo Condesmar, devido à medicação que não pode ser interrompida, o risco, no caso de uma gravidez de Viviany, é muito grande, tanto para a mãe quanto para o bebê. Já no caso de dona Maria, mesmo sendo uma gestação em uma mulher acima de 50 anos, a situação é melhor.

“Ela foi liberada pelo cardiologista e recebeu ok em todos os exames clínicos. Todos já assinaram os documentos necessários para a realização da fertilização invitro. O caso da Maria é a exceção à regra”, garante o médico.

Pela nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), publicada na semana passada, CONDESMAR terá de pedir autorização do Conselho Regional de Medicina (Cremesp) para realizar o procedimento. Pela determinação, técnicas de reproduçãoassistida podem ser realizadas em mulheres de até 50 anos. Após essa idade, precisa do aval do Cremesp.

“Essa análise serve para casos exatamente como o de Mariae Viviany. A Maria tem condições físicas para isso”. Assim, CONDESMAR acredita que até o meio do ano a avó esteja grávida dos netos.

 

Fonte: A Tribuna