Uma técnica desenvolvida no Brasil e já utilizada nos Estados Unidos em caráter experimental está devolvendo às mulheres com diagnóstico de câncer a capacidade de ser mãe e de recuperar a vida sexual.

Trata-se do transplante de parte do ovário, cujo primeiro procedimento com sucesso na América Latina foi realizado no último dia 28, em Maringá (Paraná). Nos Estados Unidos, 150 pacientes já foram beneficiadas.

Para compartilhar os resultados da técnica e treinar outros especialistas do País, o responsável pelo trabalho científico e pesquisador especializado em reprodução humana pela Universidade Federal de São Paulo, Carlos Gilberto Almodin, participou do 16º Congresso Brasileiro de Reprodução Humana Assistida, que acontece até amanhã no Hotel Sofitel Jequitimar, em Guarujá.

Almodin explica que uma vez submetida à quimioterapia e à radioterapia, a paciente oncológica fica com o ovário lesionado. Como o órgão deixa de exercer sua função, perde a capacidade reprodutiva. Além de a menopausa ser antecipada.

O médico sugere que, antes do tratamento contra o câncer, a mulher retire parte do ovário e o congele. Depois de conquistada a cura da doença, o tecido é implantado para que as células se reproduzam e o órgão recobre sua função.

Segundo o especialista, a técnica ocorre a partir de uma cirurgia onde se retira um ovário inteiro ou parte dele. “Geralmente, tiramos metade. Separamos novamente em dois pedaços e criopreservamos, ou seja, congelamos a temperaturas muito baixas. Após o tratamento, implantamos esse tecido e o outro continua armazenado em laboratório”.

A outra metade é novamente implantada após cerca de sete anos, que é o tempo de eficácia do transplante. “Uma paciente de 25 anos acometida por câncer, teoricamente conseguiria retardar a menopausa e manter sua capacidade reprodutiva até os 39 sem problemas”.

O médico iniciou a pesquisa em 1999. Em 2000 apresentou seus primeiros resultados em Seatle, Estados Unidos. Recebeu prêmios, mas enfrentou dificuldades para que a técnica, ainda considerada experimental, fosse difundida no Brasil.

“Por falta de informação, os oncologistas não encaminham as pacientes. Tive uma que venceu o câncer aos 19 anos. A dois meses de se casar, ela me procurou. Já era tarde. Ela terá filhos com óvulos de outra mulher e tomará remédios a vida inteira para controlar a menopausa”.

Minimizar o sofrimento, principalmente das pacientes com câncer de mama, é só uma das aplicações da técnica de Almodin. No último dia 28, a equipe do especialista foi responsável pelo primeiro transplante de ovário da América Latina. Neste caso, entretanto, a paciente, de 29 anos, sofria de menopausa precoce desde os 19. Ela recebeu parte do ovário da irmã gêmea e deverá engravidar dentro de oito meses.

Outra faceta da pesquisa, cujos primeiros resultados devem ser obtidos até dezembro, é possibilitar o transplante de parte de ovário entre pessoas não compatíveis.

Queremos avançar nos métodos de reprodução para pacientes em tratamento para câncer e, futuramente, permitir que mulheres possam fazer a própria reposição hormonal quando entrarem na menopausa — diminuindo os efeitos do uso de medicamentos”.

Se comprovada a eficácia do procedimento, este tipo de transplante poderá ser acessível ao público pelo SUS.

Por enquanto, como tem caráter experimental, para fazer a cirurgia o paciente arca com a despesa hospitalar. Os profissionais que realizam a operação não são remunerados.

 

Congresso

O presidente do 16º Congresso Brasileiro de Reprodução Humana Assistida, Condesmar Marcondes, conta que alguns dos melhores especialistas em reprodução assistida e biologia do mundo estão no evento, voltado à comunidade médica, acadêmicos, psicólogos e outros profissionais do setor.

“Quando começamos a trabalhar na área os resultados da reprodução humana assistida chegavam só a 15%. Hoje, beira os 40%, devido à evolução dos profissionais, de novas técnicas de transferência de embriões, do aperfeiçoamento de tecnologias dos laboratórios e melhora das medicações”.

O Sofitel Jequitimar fica na Avenida Marjory da Silva Prado, 1100, Pernambuco.

 

Fonte: A Tribuna